{"id":1413,"date":"2024-09-23T10:30:58","date_gmt":"2024-09-23T13:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/boletimjuridico.ufms.br\/?p=1413"},"modified":"2024-09-23T10:30:58","modified_gmt":"2024-09-23T13:30:58","slug":"stj-a-exigencia-de-exame-criminologico-lei-n-14-843-2024-nao-retroage-para-crimes-que-lhe-sao-anteriores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/boletimjuridico.ufms.br\/en\/stj-a-exigencia-de-exame-criminologico-lei-n-14-843-2024-nao-retroage-para-crimes-que-lhe-sao-anteriores\/","title":{"rendered":"STJ: A exig\u00eancia de exame criminol\u00f3gico (Lei n. 14.843\/2024) n\u00e3o retroage para crimes que lhe s\u00e3o anteriores."},"content":{"rendered":"<p><strong>POR:<\/strong> Adriana Dias da Silva<\/p>\n<p>Na esfera do Habeas Corpus N\u00ba 936127 do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), a parte interessada, Gustavo Cesar Ferreira Santos impetrou <em>writ<\/em>, visando garantir a prote\u00e7\u00e3o de seu direito de locomo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O paciente atualmente preso solicitou a reconsidera\u00e7\u00e3o de uma decis\u00e3o anterior do STJ do Estado de S\u00e3o Paulo, que havia determinado a realiza\u00e7\u00e3o de um exame criminol\u00f3gico para a progress\u00e3o de regime, conforme prescrito na Lei n\u00ba 14.843\/2024. Essa exig\u00eancia gerou a alega\u00e7\u00e3o de coa\u00e7\u00e3o ilegal. Segundo a defesa, a nova legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser aplicada retroativamente aos casos em que o r\u00e9u teria praticado o crime antes de sua vig\u00eancia. Nestes termos, a defesa busca a progress\u00e3o do apenado para o regime aberto, sem a exig\u00eancia de exame criminol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise da demanda e do relator Ministro Rog\u00e9rio Schietti Cruz, trouxe importantes considera\u00e7\u00f5es sobre a aplicabilidade da Lei n\u00ba 14.843\/2024, e os princ\u00edpios que regem as normas processuais penais.<\/p>\n<p>Primeiramente a jurisprud\u00eancia e a legisla\u00e7\u00e3o atual que tratam que o exame criminol\u00f3gico deixou de ser uma condi\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para a progress\u00e3o de pena com a promulga\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 10.792\/2003. N\u00e3o obstante, tal legisla\u00e7\u00e3o permitiu a sua realiza\u00e7\u00e3o, desde que fundamentada em elementos concretos da execu\u00e7\u00e3o de pena.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o em primeira inst\u00e2ncia havia determinado ao reeducando a realiza\u00e7\u00e3o do exame criminol\u00f3gico como condi\u00e7\u00e3o para progress\u00e3o de regime, sustentando tratar-se de norma processual, que, em raz\u00e3o desta natureza, n\u00e3o \u00e9 limitada pelo princ\u00edpio da anterioridade em mat\u00e9ria penal.<\/p>\n<p>O relator ressaltou que o art. 112, \u00a7\u00a01\u00ba, da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (LEP) estabelece para a progress\u00e3o de regime a an\u00e1lise da boa conduta carcer\u00e1ria e a eventual realiza\u00e7\u00e3o do exame criminol\u00f3gico t\u00eam que respeitar o contexto estadual e hist\u00f3rico do cumprimento de pena. Salientou ainda que, considerando que a progress\u00e3o de regime tem impacto na execu\u00e7\u00e3o da pena e em sua severidade, a norma que imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es para a concess\u00e3o tem natureza penal, devendo, portanto, ser submetida aos imperativos do princ\u00edpio da legalidade em mat\u00e9ria penal. No caso analisado, considerando que o apenado cometeu os delitos antes da vig\u00eancia da norma da Lei n\u00ba 14.843\/2024, tal fato inviabilizaria a aplica\u00e7\u00e3o da mesma de forma retroativa, em conformidade com o art. 5\u00ba, XL, CF.<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo aplicada a nova lei mais gravosa (que imp\u00f5e a obrigatoriedade do exame criminol\u00f3gico), fica o apenado submetido aos crit\u00e9rios estabelecidos pela legisla\u00e7\u00e3o anterior, que demanda que o exame criminol\u00f3gico, n\u00e3o sendo obrigat\u00f3rio para a progress\u00e3o para o regime aberto, somente pode ser solicitado pelo ju\u00edzo mediante fundamenta\u00e7\u00e3o id\u00f4nea.<\/p>\n<p>Sendo assim, a simples refer\u00eancia \u00e0 gravidade do crime e \u00e0 extens\u00e3o da pena n\u00e3o podem ser considerados como justifica\u00e7\u00e3o isolada para determinar a realiza\u00e7\u00e3o do exame criminol\u00f3gico, visto que n\u00e3o s\u00e3o elementos suficientes para afirmar que o apenado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de se reintegrar em nova situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. A motiva\u00e7\u00e3o apresentada pelo Juiz da Vara de Execu\u00e7\u00e3o Criminal (VEC) careceria de fundamenta\u00e7\u00e3o mais aprofundada, n\u00e3o analisando efetivamente os fatores que caracterizam a falta de ajustamento penal.<\/p>\n<p>Dessarte, com o objetivo de garantir o respeito, a legalidade e a individualiza\u00e7\u00e3o das penas, o relator decidiu pela concess\u00e3o do habeas corpus, permitindo que o paciente n\u00e3o seja submetido ao exame criminol\u00f3gico de forma irregular. A decis\u00e3o permitiu que o Juiz da VEC reexamine o pedido de progress\u00e3o considerando requisitos legais existentes, sem rebater an\u00e1lise de sua boa conduta carcer\u00e1ria ou fundamenta\u00e7\u00f5es n\u00e3o relacionadas ao contexto penal concreto.<\/p>\n<p>Mediante o exposto, essa decis\u00e3o reafirma a import\u00e2ncia do respeito \u00e0s normas processuais e aos direitos constitucionais, principalmente onde as consequ\u00eancias da aplica\u00e7\u00e3o de leis mais severas n\u00e3o podem ser impostas de forma retroativa sem a adequada fundamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>PROCESSO RELACIONADO:<\/strong> STJ &#8211; Habeas Corpus N\u00ba936127<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR: Adriana Dias da Silva Na esfera do Habeas Corpus N\u00ba 936127 do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), a parte interessada, Gustavo Cesar Ferreira Santos impetrou writ, visando garantir a prote\u00e7\u00e3o de seu direito de locomo\u00e7\u00e3o. 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